La Conexión es un espacio para jóvenes feministas - especialmente mujeres jóvenes - que trabajan sobre los derechos de la mujer y la igualdad de género en todo el mundo para conectarse, aprender y compartir información.

Más información

Ultimas oportunidades

Llamada a la participación

Bela, recatada e do lar???

O início da semana de 18 de abril de 2016 foi recebido com estarrecimento da população feminina brasileira, com a publicação da matéria em uma revista de grande circulação do país. Após um final de semana marcado pela votação no Congresso Nacional acerca do processo de Impeachment da presidenta da República, diga-se de passagem, da ilegalidade, dos discursos de ódio e retrógrados para o país (vale um diálogo a parte sobre essa votação), a Revista Veja lança sua capa da semana com a imagem de Dilma Rousseff  e a expressão “Fora do Baralho”, em menção a admissibilidade de abertura do referido processo, e em seu interior a seguinte manchete, “Marcela Temer: bela, recatada e ‘do lar’”. Mas quem é Marcela Temer?

O texto da revista segue descrevendo que Marcela Temer é uma mulher de sorte, pois seu marido (Michel Temer, vice-presidente do Brasil), a leva para jantares românticos, viagens, planeja piqueniques, e sua vida basicamente se resume a levar Michelzinho (filho do casal) a escola, cuidar da casa e dela mesma, como ir ao dermatologista. Vice campeã em concurso de miss em uma cidade no interior do estado de São Paulo por duas vezes, Marcela raramente aparece em público.

O que espanta nisso tudo, não é (apenas) a descrição estereotipada de Marcela, mas a desconstrução dos espaços de atuação e posturas adotadas pelas mulheres, utilizando isso para uso do que pensaram ser a depreciação da postura da presidenta da República do Brasil.

Em um cenário de ascensão e acirramento político, utilizar as mulheres para retomar uma visão retrógrada e estereotipada das que são figuras públicas e escolhem estar na linha de frente, significa desconsiderar o processo de luta dos movimentos de mulheres e feministas, para que estas pudessem disputar, ocupar e ganhar espaços de tomada de decisão. Ao enaltecer Marcela Temer como uma mulher que aparece pouco, gosta de vestidos na altura dos joelhos, e que sonha em ter mais um filho, retoma-se a visão de qual mulher todas deveriam ser: aquelas que estão sempre à sombra de um homem e nunca à frente. Reforça o padrão de que a mulher modelo deve ser recatada, vestida de forma “adequada”, permanecer em casa, e acompanhar um homem. O tom de admiração e satisfação diante de uma mulher subalterna empregado na matéria é repugnante.

13043759_1082121131830167_2966284381134272938_n

Apesar da repulsa ao receber essa matéria, as mulheres brasileiras prontamente deram a resposta através da hashtag #BelaRecatadaEdoLar nas redes sociais. A criatividade e poder de mobilização, mostrou ao país as diversas imagens das mulheres de verdade. São inúmeras as fotografias de mulheres em seu cotidiano, apresentando-se belas, sem o compromisso em serem recadatas e do lar. As mulheres problematizam em suas próprias imagens, e compartilhando a de outras, representando suas vivências cotidianas e as múltiplas identidades, assim como desafios para a garantia de direitos, como na linha de frente com seus corpos contra as investidas policiais pela defesa de suas comunidades e seus filhos, como com mega e microfones nas mãos falando a multidões ou em pequenos grupos junto a outras mulheres. Como únicas em espaços de disputa em seus empregos, e passando por cima da imposição patriarcal, ou simplesmente sentadas nas calçadas das ruas rindo espontaneamente, sentadas com pernas abertas, vestidas a seu modo com saias curtas (ou longas), blusas decotadas (ou sem os decotes). Mulheres reais que compreenderam que podem e vão além da restrição do lar. Algumas por imposição da vida sendo provedoras de seus lares e seus dependentes, outras que escolheram ter mais alternativas.

13006615_10207944200016538_3596375393476997300_n

crédito da foto: Lari Lará

A matéria, na tentativa de reenquadrar mulheres ao que consideram seus lugares, ignora que muitas delas jamais foram consideradas recatadas, independente da roupa que vestissem. Mulheres negras ainda lutam para que seus corpos não sejam hiperssexualizados, as jovens para que o conhecimento e cultura que constroem não seja desconsiderado, as mulheres rurais que produzem sustento com enxadas e foices, estão lado a lado pela garantia de território para ter seu sustento.

A misoginia, o desprezo ou repulsa ao gênero feminino, se manifesta de várias formas, inclusive para impor padrões comportamentais às mulheres. Esse ódio também se manifesta para com aquelas que desafiam, no cotidiano, romper com a imposição dos estereótipos machistas, e as violências sexistas, que impedem mulheres ocupar espaços decisórios, restringindo-as as paredes do lar, muitas vezes, travestido de escolha. Às mulheres podem escolher serem do lar, mas infelizmente a maioria é forçada ao longo da vida a atender as expectativas da sociedade patriarcal e abafar suas vontades (inclusive sexuais), seus sonhos e projeções.

A mulher do cotidiano, é diferente do que Marcela Temer representa, na figura idealizada do Brasil do século XIX: a mulher que sempre pede “luzes finíssimas”, discreta e recatada, que apesar de bacharél em direito, trabalhou pouco e tem um currículo lattes sucinto, e se casou com o primeiro namorado que teve. A mulher do cotidiano é aguerrida das atividades, lutas e embates enfrentados todos os dias, e fora do padrão que pretende-se impor à maioria das mulheres. Essas são muito Belas, no entanto nem sempre recatadas e do lar!

YFA-MichelySobre a autora: Michely Ribeiro da Silva, jovem negra da periferia urbana, graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná, atua no movimento social visando a elaboração e estruturação de políticas públicas com foco para a equidade em saúde, especialmente para as mulheres, populações negras, juventudes e prevenção às DST/HIV/AIDS. Compôs a equipe de articulação da Mobilização Nacional Pró Saúde da População Negra (2011-2015), foi conselheira do Conselho Nacional de Saúde (2013-2015) pela Rede Lai Lai Apejo – Saúde da População Negra e AIDS. Atualmente é conselheira consultiva da Rede Mulheres Negras do Paraná, Consultora Técnica no Ministério da Saúde e membro do Young Feminist Wire Editorial Group.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Usted también podría estar interesado en